Escrevo como cidadão, pai e morador de Varre-Sai. Alguém que olha para esta cidade, reconhece tudo o que ela significa e se pergunta que futuro estamos construindo aqui.

É nesta cidade que nossa vida acontece. Aqui estão famílias, amizades, histórias e o trabalho de pessoas que se levantam todos os dias para fazer as coisas continuarem funcionando.

Existe muita vida em Varre-Sai. Muita capacidade. Muita gente que merece encontrar condições para realizar mais.

Por isso dói perceber a distância entre o que nossa cidade poderia oferecer e as dificuldades que tantas famílias precisam enfrentar.

Nossa terra produz riqueza. O café carrega parte da nossa identidade e o esforço de gerações. Mas precisamos perguntar quanto dessa força se transforma em oportunidades para quem vive aqui.

Onde estão os caminhos para que essa produção abra espaço à formação profissional, ao beneficiamento, à inovação e a novos negócios? Como podemos fortalecer o comércio, os serviços e criar condições para outras atividades econômicas?

Quem trabalha precisa enxergar possibilidades de crescer. Quem empreende precisa encontrar condições para investir. Uma cidade precisa preparar caminhos para além daqueles dos quais já depende.

Em plena era da tecnologia, em que foguete dá ré e carro voa, como podemos aceitar que o barro ainda determine se alguém consegue trabalhar, estudar ou sair de casa?

Como aceitar que produtores e trabalhadores que carregam boa parte da economia da cidade nas costas ainda precisem enfrentar tanta dificuldade para circular e escoar a produção?

O problema da estrada continua dentro de casa. Aparece no horário de sair, na preocupação com a chuva, no custo do transporte e na dificuldade para chegar a um atendimento.

A distância pesa mais quando faltam alternativas para vencê-la. E uma cidade que tem dificuldade para conectar seus próprios moradores também encontra obstáculos para movimentar o comércio, receber visitantes e criar oportunidades.

Essas dificuldades se acumulam. Entram no orçamento das famílias, consomem tempo, limitam escolhas e tornam mais cansativo aquilo que já exige tanto esforço.

Na educação, esse peso acompanha o tamanho dos nossos sonhos.

Pais e mães trabalham, fazem contas, reorganizam a própria vida e abrem mão de muita coisa para que os filhos possam estudar. Enfrentam deslocamentos, despesas e a preocupação de vê-los passar parte da vida longe de casa.

Fazem isso porque acreditam no futuro.

Mas o que acontece quando, depois de tantos anos de esforço, esse futuro continua parecendo possível apenas em outro lugar?

É aqui que essa discussão deixa de ser distante para mim.

Eu sou pai.

Quero ver meu filho aprender, descobrir suas capacidades e construir uma vida da qual se orgulhe. Quero que ele tenha liberdade para escolher seu caminho.

Mas, quando penso nas condições que encontrará, uma pergunta me acompanha: devo permanecer aqui, dedicar anos de trabalho à sua formação e me preparar para vê-lo partir quando chegar a hora de realizar seus sonhos?

Ou devo partir agora com minha família, procurando as oportunidades que temo que ele não encontre amanhã?

Quantas famílias já fizeram essa conta em silêncio?

Quantas estão tentando decidir entre permanecer perto de suas raízes e procurar melhores condições para os filhos?

Essa escolha tem um custo que nenhuma planilha consegue mostrar. Tem a distância dos avós, os encontros que deixam de acontecer, a casa que fica mais vazia e a convivência que passa a depender de uma viagem.

E, quando uma família parte, Varre-Sai também perde.

Perde trabalhadores, consumidores, possíveis empreendedores e pessoas que poderiam ajudar a transformar a cidade. Perde parte da geração em que suas próprias famílias investiram tanto.

Quanto do nosso futuro ainda vamos deixar partir?

Também precisamos olhar para quem ficou e dedicou a vida a construir tudo isso.

Quem trabalhou durante décadas precisa encontrar condições para envelhecer com dignidade. Caminhar com segurança, acessar serviços, encontrar pessoas e continuar participando da vida da cidade.

Uma calçada difícil de atravessar pode diminuir o mundo de alguém. A falta de acessibilidade pode transformar uma saída simples em dependência. A ausência de espaços de convivência pode tornar a velhice mais solitária.

O que estamos oferecendo a quem nos trouxe até aqui?

E o que estamos preservando da história que essas pessoas ajudaram a construir?

Nossa memória vive nos lugares, nas paisagens, nas tradições e nos conhecimentos que passam de uma geração para outra. Cada referência que desaparece leva consigo uma parte daquilo que nos permite reconhecer Varre-Sai como nossa casa.

Precisamos cuidar desse patrimônio enquanto construímos o que ainda falta.

Precisamos discutir infraestrutura, saneamento, saúde, educação, transporte e acesso à informação. Precisamos compreender como os recursos públicos são utilizados e como as prioridades são definidas.

Porque o futuro também depende das decisões que tomamos no presente — e daquelas que continuamos adiando.

Até quando vamos nos acostumar?

Até quando vamos repetir que aqui é assim mesmo, enquanto as dificuldades atravessam mais uma geração?

E nós? Não vamos fazer nada?

Essa pergunta também é para mim.

Foi ela que me fez começar a escrever, procurar caminhos e tentar transformar uma preocupação pessoal em uma conversa sobre a cidade.

É dessa inquietação que nasce o Movimento Varre-Sai pelo Amanhã.

Uma iniciativa em seus primeiros passos, com muito a ouvir, aprender e construir. Um espaço que queremos abrir para compreender os problemas, estudar alternativas e aproximar pessoas dispostas a contribuir.

Existe conhecimento nesta cidade. Existe experiência no campo, no comércio, nos serviços, nas escolas e dentro das famílias. Existe gente capaz de enxergar dificuldades que outros ainda não perceberam e possibilidades que merecem ser estudadas.

Precisamos encontrar maneiras de reunir essa força.

O primeiro passo pode ser contar o que acontece na sua comunidade. Trazer uma pergunta. Compartilhar um conhecimento. Participar de uma conversa e ajudar a levar uma ideia adiante.

Eu quero poder olhar para meu filho, daqui a alguns anos, e dizer que tentei.

Que, diante da possibilidade de vê-lo partir por falta de oportunidades, comecei a procurar pessoas que também acreditavam que nossa cidade poderia construir outros caminhos.

Quero que mais famílias possam planejar a vida aqui com esperança. Que nossos moradores encontrem condições para realizar seus projetos. Que quem envelhece possa aproveitar a cidade que ajudou a construir.

Ainda temos um futuro para construir em Varre-Sai.

E ele merece começar agora.

Um cidadão de Varre-Sai. Pai e morador que, como tantos outros, quer construir um futuro melhor para sua família e para a cidade que chama de casa.

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